A carta de Palocci – Por Armstrong Lemos

Por Armstrong Lemos

Daqui a alguns anos, quando folhearmos os livros de história das últimas três décadas do nosso país, será obvia a constatação de que estamos vivendo, agora, um dos momentos mais delicados da nossa recente democracia.

Ao que tudo parece, poderemos sair desta crise, que devassa os nossos costumes políticos, mais fortes enquanto nação, mesmo que o preço seja a exposição da nossa própria fragilidade enquanto sociedade, afinal “não existe país com governo corrupto e população honesta” como bem destaca o renomado historiador brasileiro Leandro Karnal.

É necessário que compreendamos o conjunto de toda a soma do que hoje é exposto. Daí a importância de destacarmos a carta do ex-ministro Antônio Palocci que bem sintetiza, mesmo que voltada para o PT, a necessária compreensão moral do momento atual.

Quando confrontadas as circunstâncias de conforto com aquelas sem saída, é notória que haverá a produção de efeitos diferentes, conforme a conjuntura da situação que a motiva, afinal, não é a voluntariosa boa moral humana a bússola única a guiar os passos e decisões do dia-a-dia do homem mediano.

É compreensível que o ex-ministro Palocci seja mais sincero neste momento de desespero legal, do que seria se não estivesse sob a ameaça de anos solitários a serem cumpridos em uma prisão, ainda mais quando não concorreu sozinho para os ilícitos que a si são atribuídos, e que em muito foram confessados.

Ao dizer que faz a opção pela família em detrimento da política e do partido que ajudou a construir e que em muito teve a sua prioridade em detrimento do próprio núcleo familiar, o ex-ministro demonstra uma sinceridade desapegada de qualquer consequência política, pois para si, como bem destacou, chega ao fim a sua geração, com a necessária mudança conduzida por novos atores, sem perder de vista os erros cometidos pelos que antecederam.

Palocci faz referências à degradação moral de um projeto que nasceu de um conjunto popular. De uma vontade geral, que apesar de não ser expressa na carta, foi o resultado de uma luta de gerações, que coube ao PT comandar em um determinado momento histórico, que se iniciou com a eleição de Lula, e declinou com o impeachment de Dilma.

Talvez o messianismo tenha sido o grande erro, como pode se depreender da carta do ex-ministro, afinal, não se pode confiar em um só homem a moral e os sonhos coletivos, ainda mais quando a realidade clama o desmascarar do messias.

Que fique atento, também, o Maranhão!

Robert Willian Valporto

Robert W. Valporto é graduado em Comunicação Social - Jornalismo e em Gestão Pública; pós-graduado em Gestão Pública; e pós-graduado em Assessoria e Gestão da Comunicação.

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