Custódia para nossos corações!

“Eu gosto mesmo é de estar no meu rancho”. Essa é uma frase costumeiramente utilizada pela matriarca maior da família do Rosário, minha clássica Custódia. Confesso que seu bisneto, autor deste artigo, herdou tal sentimento. Este não é um artigo de adeus, mas, um de recordação.

Alegria. Sempre nas danças tradicionais da cultura maranhense era possível ver, de Vila Nova à Guimarães, a nobre Custódia encantar a todos com seu sorriso e rebolado, que a torna talvez como a maior representante de toda a família nessas atividades culturais.

O hoje tão discutido empoderamento feminino é algo tirado de letra por ela. Mãe e pai dos filhos que aprendeu a criar sozinha, guerreira e “trabalhadeira”, como ela mesma gostava de dizer. Um exemplo de mulher que nunca deixou que os desafios de sua vida a entristecessem e a fizessem recuar.

Digo isso por perceber que a talvez a maior desgraça recente de sua vida tenha sido uma queda que levou, quebrando ambos os punhos. Essa história, da qual me contou umas 90 vezes, era a mais dolorosa.

Ela atribuía culpa pela queda a uma senhora que ela ajudou a criar, que se negou a vender um botijão de gás fiado a ela, enquanto um rapaz, que apenas a conhecia, lhe ofereceu “até dois”, se assim ela quisesse. Voltando pra casa, após falar com esse senhor, ela caiu. Acho que você entende a mágoa né?

Ah, como qualquer pessoa nascida há 90 anos atrás, Custódia almoçava cedo. “Sua merda onde é que tu estavas?”, indagou-me raivosa uma vez que cheguei 12h30min para o almoço, já que havia me esperado para o seu horário de costume. Sorri no dia e estou sorrindo ao escrever isto hoje.

E como não lembrar das histórias que mostravam aquele requinte de crueldade que tinha minha bisavó. “Nunca fui cagada de urubu quando era nova. Não é depois de velha que serei”, disse uma vez quando pedida em namoro por um senhor, já após seus 80 anos.

”Eu estou aqui só, com Deus”, era como nos respondia toda vez que perguntávamos como estava, sempre que chegávamos para visitá-la. Reclamona e exigente, tornava complexo ser compreendida por quem dividisse espaço em seu lar por muito tempo.

Suas qualidades e características são únicas. Coisas que compõem a personalidade de uma pessoa que não fingia gostar de ninguém para agradar, não mentia pra ver alguém sorrir e se a oferecessem algo, por pequeno que seja, precisa ser de verdade.

À minha mãe ela chama de “nhá-neta”. Pergunta sempre feita quando eu a encontrava e faziam dias que não era visitada pela neta.

Eu vi Custódia chorar uma vez… chorei junto!

Ela contava o sentimento de quando seu bisneto, eu, sofreu um acidente onde 4 médicos diziam firmimente que seria o meu fim. Ah, Custodinha, eu esperava que o seu médico tivesse tão errado quando os meus 4 estiveram.

Ela ama plantas. Em sua casa, um dos jardins mais românticos que tive na vida. Me apoiou a amar e tinha na mente a pessoa com quem queria que eu casasse. “Cadê a bonitinha? Eu gosto é muito dela”, era algo que me dizia sempre.

“Alô, quem tá falando?”, indagou-me uma vez que liguei a ela. “É o neto que mais gosta de te cheirar”, respondi. “Não é Robert?”, rapidamente respondeu-me. É, eu cheirei muito ela. Abracei, apertei… ela levou uma parte do meu amor, mas deixou o seu amor e muitos princípios únicos de vida para nos inspirar.

Custódia é um nome de origem do Latim que significa guarda e proteção. Pois bem, ela é a Custódia para nossos corações. Não é um adeus. É um até logo!

 

Uma celebração à vida de Custódia, por Robert Willian Valporto - jornalista que ela se orgulhou de ver se formar, bisneto e maior cheirador de avó  do mundo pra ela.

Robert Willian Valporto

Robert W. Valporto é graduado em Comunicação Social - Jornalismo e em Gestão Pública; pós-graduado em Gestão Pública; e pós-graduado em Assessoria e Gestão da Comunicação.

Um comentário em “Custódia para nossos corações!

  • outubro 6, 2018 em 7:54 pm
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    Essa era a minha vó.Querido primo você descreveu parte do que cada um de nós que conviveu com ela sabia com o coração como ela era e sempre será em nossas mentes e alma.

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